Atualidade & Opinião

O que é injusto para as pessoas não pode ser justo para o clima: o caso da refinaria de Matosinhos

O caso da refinaria de Matosinhos tem dado que falar. Tem-se tornado o caso paradigmático do governo do Partido Socialista que distingue a resposta à crise climática em duas vertentes: a que é justa para as pessoas e a que é justa para o clima. Nesta lógica, pode-se dar sentido à premissa das suas políticas: para uma sociedade mais “verde” é possível que algumas pessoas tenham de sofrer com as consequências da transição social ( que de justa nada tem).

E quem são estas pessoas? São sempre as mesmas em todas as crises: as mais desfavorecidas a nível sócio-económico, as comunidades racializadas, as mulheres, as pessoas que trabalham diariamente para construir o nosso país. No caso da refinaria de Matosinhos, são os trabalhadores da Petrogral que prometem lutar “até ao fim” pelos seus postos de trabalho e enfrentar o despedimento coletivo proposto pela Galp para depois concentrar toda a atividade em Sines.

“O ministro do Ambiente e Transição Energética diz não saber como intervir para defender os postos de trabalho em causa na Galp. Esta postura apenas denuncia uma conivência intolerável com a situação criada, em coerência com a postura do mesmo ministro em todo o processo, em que ele próprio anunciou o encerramento da refinaria do Porto”, disseram esta quinta-feira, em comunicado, as organizações representativas dos trabalhadores (ORT) da Petrogal.

Não deixar ninguém para trás não se pode limitar a um bradar de convicções em momentos políticos simbólicos- tem de ser acompanhado com a   coerência política  da procura de soluções  sociais e laborais.

Este tipo de situações coloca uma dicotomia entre quem trabalha e quem defende a causa de justiça climática que não se trata de uma produção artificial. A crise climática não é um estado metafísico:  implica uma alteração e agudização das injustiças sociais que já conhecemos.  Manterá na linha-da-frente os mesmos de sempre: hoje são os  trabalhadores da Petrogral , amanhã quem sabe qual a próxima instalação a cometer os mesmos erros laborais. Enfrentar o maior desafio das nossas gerações sem um plano social é a receita para que estas situações se multipliquem e para que se aprofunde a tensão entre os movimentos  sociais que partilham valores fundamentais: o direito inalienável a uma vida digna, para todos e todas. 

A campanha “ Empregos para o Clima” ( para mais informações – http://www.empregos-clima.pt/ ) é , em Portugal, um exemplo de rota para a transição justa,  evidenciando como é possível cortar grande parte das emissões de gases com efeito de estufa em Portugal, já em 2030, criando centenas de milhares de postos de trabalho nos próximos dez anos, nos setores  da indústria, dos edifícios, dos transportes, etc . Campanhas semelhantes já surgiram no Reino Unido, na África do Sul, na Noruega e na Escócia, locais em que estes movimentos se uniram para uma causa muito concreta em comum : a defesa da nossa casa contra a sua exploração.

A luta dos trabalhadores  é a nossa luta  por uma sociedade em que possamos, finalmente e de uma vez por todas, colocar a vida no centro.

Andreia Galvão

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