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Da odisseia do lítio ao fim do património natural

Há poucos anos atrás, tem vindo a surgir a nova narrativa da exploração de lítio para uma transição energética e para a criação de uma mobilidade sustentável. Vejamos então quais são os factos e as informações de que dispomos para poder retirar essa conclusão ou neste caso, refutá-la.

As principais reservas de lítio existem hoje na América do Sul, particularmente em países como: a Bolívia, o Chile e a Argentina, nos quais domina o trabalho precário, mas não é o trabalho precário que vemos nos países do norte, mas sim onde a precariedade chega a limites de fome, onde reina a escassez de solos para cultivo, falta de recursos hídricos, por causa da paisagem massiva de hectares e hectares de lítio extraído e salgado nos montes da América do Sul.

Quem ganhará com tudo isto? A resposta está nos novos impulsionadores do neocolonialismo, particularmente, países comos os EUA, Japão, Austrália e continentes como: a Europa. É, obviamente, percetível, que este minério irá parar à produção de topo de gama dos famosos Tesla e dos nossos telemóveis caros, entre outros fins tecnológicos. E o preço, qual será? Numa breve nota de reforço, o preço é uma dívida climática inestimável, com alterações gigantes no subsolo, na fauna e na flora, na agricultura e nos recursos hídricos e, no que nos toca a nós humanos, no presente, uma injustiça incalculável às mãos do grande capital.

O que é que tudo isto terá a ver com Portugal? Em 2017, encontrou-se, em Portugal, a maior reserva europeia de lítio. As consequências desta descoberta têm levado à entrada de pesquisadores, empresas, indústrias danosas com interesses obscuros no nosso país, que sendo ele um dos países pobres da Europa, facilmente, se poderá deitar a mão aos seus recursos.

É hoje na aldeia da minha avó que vejo tudo isto a acontecer. Numa empresa nacional, na Felmica, onde a maior parte do seu capital foi parar à gestora de fundos: Oxy Capital, a qual tem ligações à empresa australiana Lepidico. A Felmica é a exploradora das minas de quartzo, feldspato e lítio a céu aberto em Gonçalo, Guarda que, neste momento, vão parar à industria cerâmica, mas projetos de pesquisa e prospeção estão já a ser efetuados para perceber a viabilidade de uma exploração de lítio para os fins de produção de baterias de lítio.

Depois, de algum tempo de pesquisas e uma visita às infraestruturas percebi, realmente, a dimensão de tudo aquilo. Em conversa, com um habitante de Gonçalo, detentor de terrenos muito próximos da área de mineração percebi que muitos danos já haviam sido feitos. Ele disse-me, que por aquela altura, os drones na área já eram visíveis, a área que eles já tinham comprado ao desbarato já abrangia as zonas de duas aldeias e uma vila. Com escassas alternativas ou mesmo elas nulas, fez uma proposta de venda dos seus pequenos terrenos, enjaulados já dentro de toda aquela área, acessos dificultados, explosões correntes na zona, o seu património conseguido ao longo de toda uma vida de trabalho e sacrifício, desde a imigração, na altura da ditadura ao regresso e à compra dos terrenos para a fixação nas suas estimadas terras, o senhor vê-se agora obrigado a vender uma casa inteira por 100 míseros euros, já para não falar do seu pequeno olival de subsistência e de toda a agricultura envolvente na qual trabalha de sol a sol, todos os dias.

Este senhor e a sua família falaram-me do pinheiro-bravo, do carvalho, do rio que por ali passa. O que se espera e já está acontecer é uma desflorestação completa destas zonas. Anos estimados de recuperação? Talvez décadas será mais preciso para replantar e fazer crescer toda uma nova floresta e já nem para isto teremos tempo. Sobre a água, já não será por aqui novidade que arrastar componentes poluentes para os rios e oceanos tem um impacto irreversível. Minas a céu aberto são sinónimo de aumento de emissões de dióxido de carbono, explosões no subsolo, alteração da morfologia da Terra, e por quanto tempo? Tão pouquíssimos anos, a maioria destas explorações está definida para ter uma duração de menos de 1 década, o que significa que vamos acabar por perder todas as potencialidades da floresta, da agroecologia, do turismo sustentável em prol de uma espécie de civilização do lucro.

Claro que isto não se passa apenas em Gonçalo. Muito perto temos a Argemela, no distrito de Castelo Branco. Mais a norte: as Covas do Barroso, Montalegre, a Serra D’Arga; aqui juntam-se as populações, boicotam-se eleições e semeia-se uma espécie de revolução popular, pela soberania do património das suas aldeias, do seu povo, da sua cultura. Manifestações correntes, movimentos formados, faixas para a rua e enxadas nas mãos. NÃO ÀS MINAS, SIM À VIDA – é este o lema de todo o movimento contra o lítio que nos traz nada mais que a essência desta luta, uma luta pela vida, uma resistência pela Natureza.

Quarta-feira, dia 5 de maio, sob o lema: NÃO HÁ MINAS VERDES – Manifestação contra a narrativa Green Mining, os movimentos contra a mineração em Portugal vão encontrar-se às 11 horas, em Lisboa, no Centro Cultural de Belém, em resposta à Conferência Europeia sobre Green Mining. Se não estivermos lá para nos manifestarmos contra estes projetos massivos de destruição ambiental, os mesmos não serão parados de ânimo leve, por isso apelamos a todes que se juntem, porque exigimos Justiça Climática, exigindo Justiça Social. Juntes contra às Minas de Lítio.

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