Nós e o mundo

A Linha do Algarve e as propostas que não passam do papel

Em 1980, a viagem entre Vila Real de Santo António e Lagos fazia-se em 2h56m e era direta. Em 2000, a CP (Comboios de Portugal) decidiu dividir a Linha do Algarve em dois troços. Atualmente, a ligação mais rápida demora 2h50m e obriga a um transbordo em Faro, porque ainda existe, maioritariamente, uma via única. Fazendo as contas: em 40 anos ganharam-se 6 minutos.

Este paradigma tem-se mantido e explica o porquê de se demorar entre 30 a 40 minutos de Loulé a Olhão, para se percorrerem 26 quilómetros.

Para que as ligações sejam mais eficientes é necessário que a infraestrutura permita maiores velocidades e que a CP altere o modelo de exploração, apostando também em novos horários mais rápidos.

Num estudo da Ferbritas, SA de 2007 sobre a viabilidade do Sistema Ferroviário do Algarve estava exposto o seu descendente desempenho. A razão pela qual, ao longo destes anos todos, não foram efetuados investimentos na linha ferroviária do Algarve reside na deficitária exploração, que aliada ao constante declínio da procura, fez com que a degradação continuasse.

Face a esta situação, o Estado abandonou a ferrovia algarvia e a única coisa que propunha para a sua  melhoria era a “utilização de motores não tão velhos”. Em vez de se focar nas soluções, preferiu enfatizar os problemas.

A obra de eletrificação da Linha do Algarve vai começar “nas próximas semanas” dizia Carlos Fernandes, o Vice-Presidente da IP (Infraestruturas de Portugal), em declarações dadas em  Faro, a 7 de setembro. O próprio declarou que os projetos para a modernização entre Lagos e Tunes e entre Faro e Vila Real “já estão concluídos.”

Mas verdade seja dita, fartos de promessas estamos nós. Sabemos que não tratam de as cumprir. Já em 2017, o Governo prometia-nos uma linha eletrificada até 2020… Onde é que ela está?

A IP apresenta no Ferrovia 2020 um projeto para o Algarve, todavia é o menos ambicioso de um conjunto de projetos. A empresa prevê apenas eletrificar as duas pontas da linha que ainda não têm catenária – o cabo de distribuição e alimentação elétrica – sem contemplar qualquer intervenção que aumente as velocidade.

O pior troço vai de Tunes a Lagos, onde a velocidade máxima chega a ser de 30Km/h. Mesmo que a CP queira fazer comboios Intercidades ou Inter-regionais no Algarve, estes teriam de passar a 30 à hora nas estações do ramal de Lagos. É incompreensível.

E, infelizmente, é assim que tudo vai continuar após o investimento de 64,8 milhões de euros na Linha do Algarve. A Infraestruturas de Portugal diz só ter obtido 48,7 milhões, provenientes dos fundos comunitários, para este empreendimento e assume que “não esteve prevista a alteração de traçados para o aumento de velocidade”. A mesma fonte oficial da empresa acrescenta: “essa alteração de pressupostos obrigaria a um aumento muito significativo do investimento global do programa”.

Quais seriam os valores desse aumento? Não os revelam. A análise custo benefício do projeto algarvio da IP limitou-se a comparar os acréscimos de passageiros entre a situação atual e a eletrificação, sem incluir quaisquer cenários com intervenções no traçado da linha para aumentar a velocidade ou a sua extensão.

E por parte da Comboios de Portugal? As automotoras mais obsoletas de toda a sua frota são as que percorrem diariamente a Linha do Algarve – as UDD (Unidades Duplas a Diesel) – que têm vindo a apresentar, nos últimos anos, avarias constantes que obrigavam frequentemente e até diariamente à supressão de viagens, tendo de se recorrer ao autocarro.

O novo presidente, Nuno Freitas, e o vice-presidente da CP, sendo engenheiros com experiência em manutenção de material, conseguiram acabar com as supressões, sem, contudo, inovar nos horários. Porém, Nuno Freitas mostra-se confiante em relação ao futuro e espera que daqui a 3 ou 4 anos, quando a linha estiver eletrificada e a CP possuir os novos comboios cujo concurso público está a decorrer, o Algarve passará a ter um serviço de qualidade.

Pessoalmente, considero que a Linha do Algarve tem um grande potencial, especialmente por passar no centro da maioria das cidades algarvias. No ranking das 6 estações da rede ferroviária nacional com mais passageiros e que são apenas servidas por comboios regionais estão 4 algarvias: Olhão, Lagos, Portimão e Tavira.

Na zona a começar da estação Ferreiras-Albufeira sugeria a construção de um troço mais perto do litoral até Lagos. Relativamente aos longos cursos, considero que com o investimento certo, os comboios vindos de Lisboa teriam capacidade para prosseguir viagem até Vila Real de Santo António, da mesma forma que os passageiros do sotavento algarvio poderiam embarcar e só sair em Lisboa, sem necessidade de transbordo em Faro.

Em suma, eletrificar a linha e até criar uma via dupla ou banalizada permitiria criar ligações diretas e rápidas entre as duas pontas do Algarve através de um serviço Inter-regional ou Intercidades, tornando a viagem competitiva com o modo rodoviário, descongestionando a Estrada Nacional 125 e apresentado outras opções para os altos custos para os utentes da Via do Infante, afastada do Litoral.

Glossário:

VIA SIMPLES 

Infraestrutura de transporte guiado cujo perfil transversal apresenta uma só via que pode ser percorrida nos dois sentidos.

VIA ÚNICA

Infraestrutura de transporte ferroviário de plena via, cujo perfil transversal apresenta uma só via que pode ser percorrida nos dois sentidos.

VIA DUPLA

Infraestrutura de transporte ferroviário cujo perfil transversal de plena via apresenta duas vias em que, normalmente, há um só sentido de circulação para cada via.

VIA BANALIZADA

Linha de duas ou mais vias em que a circulação dos comboios se pode fazer nos dois sentidos pelo menos numa delas. Nestas vias, as instalações de sinalização não permitem a circulação simultânea de dois comboios de sentidos contrários no mesmo troço.

Artigo de Diogo Martins, ativista da Greve Climática Estudantil do Algarve

You may also like...

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *