Nós e o mundo

Que caminhos para o futuro?

Somos jovens que cresceram num período em que o tempo conta como uma bomba-relógio. Sabemos que o mundo como o concebemos é uma fundação instável para uma casa que se está a afundar, enquanto em simultâneo arde connosco. O caos da emergência climática agudiza todas as grandes dificuldades das nossas vidas- torna mais difícil viver nas nossas cidades, torna mais difícil estudar, amar quem quisermos. As últimas palavras de vida de George Floyd ecoam a cada passo que damos: não conseguimos respirar.

Perante o desalento, milhares de jovens, um pouco por todo o mundo, fizeram o que os jovens fazem: desafiaram o status quo. Foram para as ruas, protestaram, mobilizaram as pessoas à sua volta, encheram as redes sociais, bombardearam a agenda política. Ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética, já diziam.

Sabemos que mudar é possível. Mas arde em todos os nosso peitos a questão: quais os caminhos para o futuro?

O meu caminho pessoal com estas questão principiou com uma linha que me era próxima geograficamente- a linha do Oeste, especialmente quando percebi como incorpora os trilhos do passado para o presente.

Sou vizinha de uma linha que ficou há muito esquecida. Nas últimas décadas, a linha ferroviária do Oeste pouco ou nada sofreu melhorias. Esperámos por investimento para requalificar a  linha, pô-la a funcionar, que o governo insistia em prometer perante as reivindicações das populações locais. Os lobbys financeiros insistiram em favorecer o transporte automóvel, às custas das pessoas e do planeta. Parece que agora vemos um cenário um pouco animador, em que será dada resposta a esta linha ( embora com um atraso injustificável de três anos na obra perante o previsto), mas não somos inocentes. Que resposta é esta?

A solução que o Governo do Partido Socialista apresenta no polémico Orçamento de Estado apresenta-se como “inovador” , assente num modelo em rede, que inclua linhas, ramais e trajectos interligados. Pretende investir mais nas linhas com potencial turístico e conectar a ferrovia às redes aeroportuárias no nosso país, aumentando também o investimento nesta forma de transporte-  sendo que o apoio do Estado à TAP pode subir para 1700 milhões de euros.

Este plano parece-nos altamente contraditório, irresponsável. Não podemos compactuar com um Orçamento que impõe nas suas linhas políticas falsas respostas ao maior problema das nossas vidas. O transporte ferroviário não deve funcionar como um ferry para os turistas que saem do aeroporto. Para resolver a crise climática, é necessário investir em mobilidade sustentável, para que a ferrovia seja uma alternativa sustentável de mobilidade para quem vive e trabalha no nosso país.

“Sabemos que há governos que, declarando-se verdes, amigos da juventude, modernos, e religiosamente adeptos de todos os direitos humanos, mas que, por detrás das sombras, agem completamente contra o que prometem, e contribuem sem hesitar com um projeto destrutivo e irresponsável de poder, como infelizmente é o caso do governo Português.”

Também sabemos que temos de ser nós as guardiãs do nosso futuro, do nosso presente, construindo linhas que conectam a sustentabilidade social, climática, a igualdade. Sejamos radicais- exijamos o impossível.

Andreia Galvão, ativista da Greve Climática Estudantil

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