Nós e o mundo

A brincadeira de números da UE que nos leva ao abismo

No passado dia 8 de Outubro, o Parlamento Europeu aprovou um corte de 60% até 2030 nas emissões de gases com efeito de estufa da União Europeia, aumentando a atual meta de redução das emissões em 55% em relação aos níveis de 1990. Cabe agora ao Conselho Europeu aprovar este novo corte – um processo que poderá ser moroso. É de notar que nem a anterior meta de 55%, nem a atual de 60%, nem uma hipotética de 65% seria suficiente para cumprir o Acordo de Paris – que, por sua vez, também se revela insuficiente para travar o colapso civilizacional que se avizinha com o agravar da crise climática.


Os cortes nas emissões de gases com efeito de estufa propostos para a União Europeia baseiam-se nos níveis de 1990. Tem-se que a UE, em grande parte devido ao abrandamento da atividade económica consequente das crises financeiras, reduziu as suas emissões em cerca de 23% nos últimos 30 anos. Isto significa que o corte proposto, baseando-nos na atualidade, é, na verdade, um corte de apenas 48% (em relação às emissões reais de 2018). É também de frisar que a redução de emissões proposta não tem em conta as emissões derivadas da aviação internacional, do transporte marinho ou do consumo de bens fabricados fora da União Europeia. Ou seja, esta meta só abrange uma parte das emissões totais da UE – havendo muitas que são importadas e, consequentemente, não contabilizadas. É evidente que estão a brincar com números e que o nível de ambição é muito mais baixo do que aquilo que aparenta ser.


A Ciência diz-nos que, de modo a manter o aumento da temperatura média global abaixo dos 1.5ºC, temos de cortar 50% das emissões mundiais de gases com efeito de estufa até 2030 – não o fazer é destruir as condições materiais que permitiram a civilização humana.
Sabemos que os países que historicamente mais contribuíram para as emissões de gases com efeito de estufa – países do Norte Global – têm responsabilidade histórica e moral para com os países que são mais diretamente afetados pela crise climática. Esta, é um resquício de séculos de colonialismo, escravidão e exploração. Como tal, os cortes de emissões devem acontecer muito mais rapidamente no Norte Global – traduzindo-se isto em, no mínimo, um corte de 70 a 90% nas emissões reais actuais até 2030.


Não é possível continuar a fingir que pequenas reformas e esforços pouco ambiciosos enfrentarão a crise climática; é preciso ações concretas e mudanças profundas baseadas na Ciência, em justiça climática e justiça social. A humanidade está à beira do abismo e apenas uma total transformação na economia e na sociedade irá impedir o colapso civilizacional. Encontramo-nos no que alguns cientistas chamam de “década zero”: a década em que será decidido se teremos um planeta completamente diferente – caos climático -, ou se teremos uma sociedade completamente diferente. O tempo está a esgotar e as instituições da União Europeia estão a usá-lo para utilizar truques de contabilidade que escondem a sua catastrófica inação climática.
Mas não nos deixemos enganar. Fazer o nosso melhor deixou de ser suficiente; temos de fazer o impossível.


Bianca Castro, estudante e ativista na Greve Climática Estudantil – Fridays For Future Portugal

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