Nós e o mundo

Que transporte apanhar para o caos climático?

Em Portugal, os transportes são responsáveis por cerca de 25% das emissões de gases com efeito de estufa e 36% da energia total consumida.

Os transportes constituem uma necessidade social básica, que deve possibilitar a todas e todos o acesso a serviços e bens de primeira necessidade, tais como o acesso ao médico, ao trabalho ou à escola. Contudo, o seu estado em Portugal é precário e preocupante.

Os transporte públicos devem ser acessíveis e versáteis. Mas anos e anos de desinvestimento e privatizações no setor dos transportes em Portugal traduzem-se, diariamente, em atrasos, supressões, preços elevados de bilhetes e passes, horários reduzidos, falta de oferta e falta de condições em geral que tornam as viagens desagradáveis. Consequentemente, há uma tendência de aumento do uso do carro individual – o que contribui para as emissões de gases com efeito de estufa e aumenta as disparidades no acesso aos transportes.

A crise climática que enfrentamos urge reduzir a circulação de meios de transporte poluentes. A transição energética exige uma mobilidade sustentável. Para isso, é necessário desenvolver, alargar e melhorar a qualidade dos transportes públicos. 

Ora, o transporte ferroviário – comboio -, é o que emite menos gases com efeito de estufa e utiliza a energia de forma mais eficiente. É um ponto de partida para a mudança que necessitamos. Ainda assim, em maio, a RENFE anunciou o fim da única ligação ferroviária entre Lisboa e Madrid. Isto erradica a opção menos poluidora para este trajeto, obrigando a uma maior dependência do transporte aéreo. Em 2017, a ligação aérea correspondente correspondeu a 110 mil toneladas de emissões de CO2.

Também a nossa Linha do Oeste se encontra esquecida, evidenciando o desinvestimento crónico do Estado Português na ferrovia. A modernização desta linha compreende um investimento global de 106,8 milhões de euros, financiado a cerca de 70% por fundos comunitários. Ora, o projeto já conta com um atraso que será, até ao momento, de pelo menos 3 anos face ao que estava previsto.

Estes exemplos demonstram que, apesar da questão dos transportes públicos ser essencial para a Justiça Climática, o que testemunhamos é o seu desmantelamento e privatização, o que leva ao aumento da utilização de transportes individuais.

A rede de transportes públicos deve proporcionar um serviço público e acessível a todas pessoas – o seu fim principal não pode ser o lucro. Deve ser assegurado um acesso justo ao transporte a toda a população, independentemente do seu estatuto socioeconómico.

É necessário expandir e desenvolver a rede, de modo a apoiar quem vive, trabalha e estuda em zonas mais isoladas, melhorando a vida nas periferias das grandes cidades e diminuindo o abandono das regiões rurais.

Há duas maneiras de tornar a mobilidade sustentável: utilizar fontes de energia com baixas emissões de gases com efeito de estufa e aumentar a eficiência dos transportes no geral. Para tal, é necessário investir nos transportes públicos e em veículos elétricos – havendo também investimento na produção de energia elétrica a partir de fontes de energia renovável.

Uma rede de transportes eficiente e abrangente a todo o território nacional irá também promover o transporte inter-regional e internacional de pessoas e mercadorias, com emissões reduzidas. 

É urgente investir nos transportes públicos numa ótica de serviço público, de forma a garantir um planeta justo e habitável. 

Reivindicamos o caráter de gratuidade e a requalificação da rede de transportes públicos nacionais, tanto através da sua expansão, quer nacional quer internacionalmente (criando possibilidades de descentralização de serviços), como através da sua eletrificação.

É mais importante que nunca continuar a crescer a onda de mobilização por Justiça Climática. Contamos contigo?

Bianca Castro, estudante e ativista pela Justiça Climática na Greve Climática Estudantil

You may also like...

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *