Nós e o mundo

Clima: que espaço tem na agenda política?

”Quando a água começa a ferver, é tolice desligar o fogo.”- Nelson Mandela

Sabemos que a pauta climática tem marcado a agenda política de uma forma mais evidente nestes últimos anos. O fenómeno Fridays For Future impactou o nosso olhar sobre o papel dos jovens na política dos nossos tempos, sobre como pode ser a atual mobilização de massas num mundo, paulatinamente, mais digital.

Milhares de jovens saíram das suas casas, desde ativistas no Uganda a defender a floresta do Congo, a brasileiros que não permitem a imoral desflorestação da Amazónia, a portuguesas, um pouco mais perto de nós, que se batem pela requalificação dos trabalhadores da central de Sines, por exemplo. Foram múltiplas as causas que, internacionalmente, fizeram florescer, arder a defesa pelo nosso futuro, pelo nosso presente e pelas nossas vidas. Enquanto ardiam as chamas na Califórnia, também o fogo da vontade de mudança era exponenciado em milhares de ativistas.

Em Portugal, temos visto um Governo do Partido Socialista a tentar dar falsas respostas ao problema climático. No mesmo ano em que a nossa capital era considerada “Capital Verde”, ouvia-se falar de planos de expansão do aeroporto de Lisboa, apoiando uma das formas de transporte mais poluentes, deixando a ferrovia ao abandono. O mesmo governo que se pronuncia amigo dos jovens assina quinze contratos de exploração de petróleo e gás e projeta um gasoduto de 160 quilómetros entre Guarda e Bragança.

O momento que vivemos é crucial para a afirmação de ideias políticas, sendo que começamos a enfrentar o momento em que se traçam os planos para enfrentar a grave recessão económica que se avizinha. Por exemplo, o Governo apresentou esta semana as linhas gerais do Orçamento de Estado aos partidos com assento parlamentar, plano que poderá (ou não) ser viabilizado pelos mesmos para preparar o país, reorientar as prioridades políticas, respondendo às crises emergentes.

Em simultâneo, António Costa também apresentou o primeiro rascunho do Plano de Recuperação e Resiliência Económica que será apresentado em meados de Outubro em Bruxelas, candidatando o nosso país a um total de 12,9 mil milhões de euros de subvenções e um máximo de 15,7 mil milhões de euros de empréstimos, oriundos da União Europeia. Os três pilares deste documento são:  resiliência, transição digital e transição climática (a este último caberá, obrigatoriamente, uma parcela de 37% do total de custos estimados).

No entanto, várias questões ficam no ar. A transição climática justa será efetivamente tida em conta nestes planos sociais ou estas declarações de intenção de resolver a crise climática serão, mais uma vez, somente retóricas? Quem serão os grupos sociais a viabilizar planos que não tenham as preocupações de milhares de ativistas por todo o mundo? Ou, por outro lado, onde devemos formar alianças para fazer avançar a nossa luta?
Como já foi dito diversas vezes em congregações políticas, deverá ser repetido até a voz que as vozes mais sonante sejam a da justiça: we are watching.

Andreia Galvão, ativista da Greve Climática Estudantil

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