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Central de Sines: para onde fica a transição justa?

A luta por justiça climática passa por muito mais do que condenar o modo de organização das nossas sociedades, que privilegia o lucro acima do valor inerente à vida; passa também por propor um modelo alternativo social.

O movimento climático bateu-se durante bastante tempo pelo encerramento das centrais termoelétricas de Sines e do Pego, porque uma sociedade realmente comprometida com a urgente redução das emissões carbónicas deve cessar a exploração de combustíveis fósseis. 

A central Termoelétrica de Sines – a mais poluente a nível nacional -, entre 2008 e 2017 representou, em média, 12% das emissões totais nacionais de GEE, colocando-se como um dos maiores obstáculos aos avanços da transição energética.

De facto, conseguiu-se uma vitória com a antecipação do encerramento completo desta central para Janeiro de 2021- foi um marco crucial para a nossa luta, para mostrar que mudar não é só necessário como possível.

Hoje em dia, o mar está mais frio na praia de São Torpes, na Costa Vicentina, bem longe das temperaturas tropicais que costuma marcar. O edifício da EDP deixou de queimar carvão para produzir energia elétrica.

No entanto, o fecho desta central, sem garantias para a totalidade das pessoas trabalhadores, é um claro exemplo de uma transição energética injusta – demonstra o quão necessário é que a luta por justiça climática seja uma luta por justiça social.

Nos últimos meses, 600 pessoas trabalhadoras foram despedidas do Complexo Industrial. Enquanto isto, as empresas que aí operam distribuirão os lucros aos seus accionistas. A EDP irá distribuir 694 milhões de euros, e a Galp 318 milhões.

O SIEAP – Sindicato das Indústrias, Energias Serviços e Águas de Portugal está preocupado com o futuro de 107 pessoas trabalhadoras da EDP e das 227 que pertencem a empreiteiros que trabalham na central da EDP, em São Torpes.

O Centro de Emprego de Sines registou um aumento, sem precedentes, de 700 pedidos de emprego. Porém, segundo o sindicato, haverá «muitos mais, que nem sequer terão direito a subsídio de desemprego».

Segundo o sindicalista Hélder Guerreiro, 60 dos trabalhadores a dispensar têm contrato a termo certo ou por tempo indeterminado e os restantes 30 trabalham à hora. Salienta também que “Muitos dos trabalhadores asseguram a manutenção da refinaria há 30, 20 ou 10 anos e entre os ultra precários, que trabalham à hora, também há quem preste este serviço há 5 anos”; «São anos de contratos precários que os deixam sem hipótese de recorrer ao subsídio de desemprego, ficando sem qualquer rendimento».

A resposta governamental tem deixado muito a desejar. Matos Fernandes disse, em conversa com o Público que “ desemprego não pode “manchar” “ boa decisão de fechar aquele central”, e que o fecho da central de Sines traz algumas “inquietações”. Ora, não podemos normalizar a desresponsabilização governamental perante quem trabalha, com os e as trabalhadoras.

Uma verdadeira transição justa para uma economia de baixo carbono tem de assegurar a  requalificação das pessoas trabalhadoras das indústrias poluentes, assegurando que estas não saem prejudicadas, nem são empurradas para uma situação de precariedade e instabilidade laboral. Os lucros da Galp, da Petrogal e da EDP devem ser investidos tanto na efetivação das pessoas trabalhadoras, como na transição energética. 

É mais importante que nunca perceber que a luta por justiça climática implica uma reestruturação de todos os setores sociais, mobilizando-se para a verdadeira mudança em torno de uma sociedade mais justa e democrática.

Dia 25 de Setembro, junta-te a nós e #FazPeloClima. Precisamos de ti!

Andreia Galvão e Bianca Castro, ativistas na Greve Climática Estudantil

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