Nós e o mundo

Greta e o prémio para a humanidade

A escolha de Greta para vencedora da 1ª edição do Prémio Gulbenkian para Humanidade foi um importante reconhecimento público da importância da luta pela justiça climática. Reconhecimento esse que não se traduziu apenas, como é costume, em palavras vazias ou numa “palmadinha nas costas” paternalista, mas sim em investimento financeiro.

O consenso que surge em torno do seu nome não é de surpreender: em menos de dois anos, Greta ajudou a construir um movimento internacional de massas que fala, pela primeira vez com tanta intensidade, ao público geral sobre justiça climática. O elemento mobilizador do Fridays for Future permitiu que a preocupação com a crise climática e a sua resolução justa rebentasse e saísse da bolha em que se encontrava há uns anos, e saltasse para os ecrãs da mass media mundial, marcando o momento em que o status quo começa a reconhecer publicamente que existe um problema. Desde então, muitas manifestações, reuniões, cartas abertas e grandes ações aconteceram. Também muitos líderes mundiais (e nacionais) utilizaram o crescimento do movimento para publicitarem as suas medidas ainda largamente insuficientes, produzindo um discurso que estivesse a condizer com a procura geral da população por respostas à crise climática. No entanto, a ciência é clara, e Greta, os ativistas do movimento e todos os apoiantes seguem com determinação na reivindicação contundente de uma clara rutura e mudança de paradigma social, político e ecológico.

No discurso de Carlos Moedas, administrador da fundação, Greta é apontada como uma das pessoas que quer “construir”, em detrimento daqueles que querem “destruir” o sistema pensando que estão a criar um novo. Não sei até que ponto é que os dois termos constituem uma contradição: na verdade, para mitigarmos e resolvermos a crise climática com justiça social, é necessário destruir o sistema fóssil e extractivista em que vivemos, para depois construir algo novo, mais justo, baseado em necessidades reais, ecológico e democrático. A polarização da sociedade em torno das alterações climáticas vai acontecer, tal como disse Carlos Moedas. Mas não nesses moldes. O fosso já aberto é entre aqueles que lutam com unhas e dentes para preservar este sistema, aplicando-lhe algumas reformas estéticas de forma a amenizar protestos; e aqueles que têm a coragem e força política para reivindicar um sistema novo, desprendendo-se do velho business as usual e utilizando o sentido de criatividade e justiça para imaginar o mundo do futuro.

Não nos podemos esquecer que, até há pouco tempo, a Fundação Calouste Gulbenkian era detentora da Partex, empresa petrolífera com negócios em todo o mundo. Durante seis décadas, a Fundação foi responsável pela exploração extractivista de recursos, pessoas e territórios. Isto significa que a Gulbenkian, tem, de facto, uma dívida. E a atribuição deste prémio, bem como a venda da Partex, são ótimos primeiros passos para o seu trabalho de reparação.

Uma coisa é certa: a ação climática não pode ficar dependente da boa vontade de empresas e fundações. Devemos lutar para que sejam as políticas públicas a liderar o caminho da transição energética e social justa. Greta e os ativistas do movimento pela justiça climática continuarão a exigir, das mais diversas formas, que o Governo e as instituições tomem ação radical no combate à crise climática.

Greta virá a Portugal quando as condições sanitárias permitirem, para poder receber em mãos o prémio. Contamos, desta vez, com mais do que algumas cartas e palavras bonitas por parte dos governantes. Contamos com a verdadeira prova de que a coragem e as vontades políticas mudaram: cancelamento dos contratos de gás em cima da mesa, do aeroporto do Montijo e de todos os projetos que aumentem as emissões; e início do processo de criação de centenas de milhares de empregos para o clima que  operacionalizem a transição energética, os transportes, a requalificação dos trabalhadores e o cuidado da floresta.

Se, até lá, e apesar de todo o reconhecimento público à luta pela justiça climática, os Governos de todo o mundo ainda não aprenderem, não tem problema: a data 25 de Setembro já está marcada nos calendários dos grupos do Fridays for Future por esse globo fora como data para nova greve climática.

Matilde Alvim, estudante de Antropologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa

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