Nós e o mundo

Contratos de caos climático

    A crise climática não é um problema do futuro para ser resolvido no daqui a uns anos, mas sim um problema atual que precisa de começar a ser resolvido agora. É a comunidade científica que o avisa e sabemos que os governos o reconhecem globalmente desde pelo menos 1998, aquando da assinatura do protocolo de Kyoto. Desde esse ano assinaram-se cartas, tratados e acordos internacionais que visavam manter a Terra um planeta habitável para as gerações futuras, e desde esse ano a temperatura média global continuou a aumentar e a destruição da biodiversidade não viu nem um sinal de abrandar.

     Hoje, 9 de Julho de 2020, a concentração de CO2 na nossa atmosfera é mais alta do que a deste dia no ano passado – um aumento, contínuo, de pelo menos 30% desde 1960. Da mesma maneira, este vai provavelmente ser o ano mais quente desde a revolução industrial, uma subida de pelo menos 1,3°C, seguindo a tendência dos últimos anos que vêm sucessivamente quebrando recordes. 

     Portugal também se comprometeu a reduzir as suas emissões de CO2 e o governo criou o Roteiro Para a Neutralidade Carbónica em 2050, uma meta que se tomada por todos os países do mundo garantiria um aumento da temperatura global acima dos 2°C estabelecidos no acordo de Paris. A criação deste Roteiro em nada impediu esse mesmo governo de fazer planos para a expansão dos gasodutos e dos portos que recebem gás natural líquido, assim como planos para a criação de um novo aeroporto e a concessão de vários projetos mineiros em território português.

     Não é com surpresa que leio a notícia do não cancelamento dos contratos para prospecção e exploração de gás fóssil em território português, conivente com a atitude do governo português em relação às urgência de aplicação medidas que vão de encontro com o que é dito pela comunidade científica. Os dois contratos ainda válidos são os últimos sobreviventes dos 15 contratos de exploração de hidrocarbonetos que viram crescer uma onda de contestação social que levou ao cancelamento de 13 destes.

    Estes contractos, para além de ruinosos em termos financeiros, são ruinosos para as populações locais e contribuem para o aumento das emissões globais, numa mensagem clara de desresponsabilização e de incapacidade de lidar com a crise climática que se encontra à nossa frente. Os contratos, em Aljubarrota e na Bajouca, foram também contestados, como os outros 13, tanto a nível local, com protestos cada vez maiores da população, como a nível nacional, fazendo parte das contestações feitas pelas greves climáticas, com um nível de envolvência da população cada vez maior.

    Vivemos num país cujo governo se gaba das suas políticas ambientais, que são insuficientes em todos os níveis, e que ignora continuamente a voz que cada vez grita mais alto a exigir medidas ambientais concretas e que realmente tornam Portugal um exemplo na luta contra as alterações climáticas. É assim mais importante que nunca continuar a crescente onda de mobilização, que envolva cada vez mais pessoas e de cada vez mais lutas, para que possamos exigir justiça climática e uma Terra habitável para as gerações vindouras.

Gonçalo Paulo, ativista da Greve Climática Estudantil

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