Greve de Porta Aberta, Habitação

A casa é de quem a habita e a cidade sustentável é de quem a germina

Fomos assolados pela pandemia e pela narrativa dicotómica de escolha entre a vida e a morte. Mas a vida não é apenas um conceito abstracto. A vida quer-se digna. A vida quer-se com direitos. A vida quer-se no presente e quer-se com esperança de futuro. Esperança que nos dê forças para defender um mundo sustentável para viver e uma casa para morar.

Quando o país foi forçado a parar, o tempo não foi interrompido. Não fomos todos para casa cumprir o confinamento à espera que regressasse a normalidade. A normalidade já era o tempo suspenso de muitos.

A normalidade era o cenário apocalíptico de quem se via despejado, sem casa, a viver na rua. Era “normal” destruir as casas após os despejos, para garantir que não podiam voltar a ser habitadas. A normalidade era o contexto avassalador de quem, durante anos, viu adiado ou negado o acesso a casa e, perante o desespero, ocupou e remodelou casas vazias. De quem resistiu e lutou por um direito que devia ser assegurado e garantido. A normalidade era viver sempre na iminência da chegada do corpo policial. A normalidade era viver, dia após dia, sob o espectro de criar filhos na rua.

A normalidade era a cidade feita para inglês ver, ao sabor do canto do cifrão e ao ritmo da especulação. A cidade direccionada para o lucro desenfreado sem preocupações ecológicas e sociais. A normalidade gerou um cais de cruzeiros e a propagação viral de alojamento turístico. Foi neste caldo de normalidade que se esvaziaram bairros, se expulsaram moradores que não podiam acompanhar a subida dos preços das rendas e da taxa de esforço. Foi nesta conjuntura normal que se gentrificou uma cidade que foi agora esvaziada pela quarentena. Uma gentrificação que escondeu as casas em condições degradadas, que escondeu os sem-abrigo, que escondeu quem não tinha condições sanitárias básicas em casa ou que não tinha como pagar a exorbitante conta da electricidade.

A pandemia foi esta normalidade para os mesmos e para mais. O estado de emergência não incluiu as famílias que por mais de um mês se viram a viver ao relento no bairro Alfredo Bensaúde, nos Olivais. Não incluiu os moradores de bairros suburbanos como a Cova da Moura, que não viram asseguradas as condições sanitárias no espaço que habitam. Não incluiu os utilizadores dos balneários públicos encerrados por todo o lado. Não incluiu todas as pessoas que já tinham ordenados mínimos para rendas abusivas e que, após despedimento ou lay-off, têm de optar entre a renda e o pão.

Enquanto prevalecer a lógica do lucro e da especulação, o Airbnb irá sobreviver aos contractos de longa duração. Enquanto prevalecer a perversidade do sistema, o capital irá preferir demolir e construir de novo, irá preferir casas vazias, irá preferir terraplanar as colinas para edificar novos empreendimentos.

Não queremos tornar à normalidade, à precariedade e ao futuro incerto de outrora. A pandemia não pode ser a oportunidade de alguns e o abismo da maioria. A casa é de quem a habita e a cidade sustentável é de quem a germina.

Laura Almodovar, Antropóloga, investigadora e activista pelo direito à habitação

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