Filosofia, Greve de Porta Aberta

Desenvolvimento científico: problema ou solução?

A crise climática demonstrou o seu estatuto alarmante já há alguns anos. Estamos constantemente a ser bombardeados com mais informação sobre a mesma, sobre como os danos causados podem tornar-se irreversíveis. Para enfrentarmos esta crise, a nossa ação tem de ser rápida e eficaz.

Segundo a perspetiva de Hannah Arendt, poderemos constatar o que esteve na origem do desinteresse pela natureza e como este resultou na crise que enfrentamos. Na minha opinião, constatar a génese da relação de poder problemática que o ser humano possui com o ambiente torna-se necessário. Para assim sabermos o que poderemos mudar para que esta crise se torne reversível.

Podemos considerar que a crise climática que enfrentamos na contemporaneidade possui as suas raízes na modernidade. Após o período da revolução científica, que se inicia com Copérnico, existe uma mudança no pensamento humano. A religião perde a sua influência sobre os seres humanos, através dos progressos científicos e tecnológicos. A fé religiosa transforma-se numa fé cega na ciência, que podemos classificar como tendo uma natureza positivista.

Antes da modernidade, a religião cristã possuía uma grande influência na mente humana. O seguimento da sua matriz simbolizava a salvação eterna, mas também simbolizava aceitar uma tese determinista, o que levava a aceitar a essência imprevisível da natureza como resultado dos desígnios divinos.

O ser humano, após a revolução científica, tornar-se-á no protagonista da narrativa histórica. O deus cristão é substituído pelo ser humano divinizado, o que mudará a posição deste último perante a natureza. O que era outrora convivência pacífica tornar-se-á na subjugação da natureza pelo ser humano. A divinização da humanidade implicará um maior cuidado e preocupação com o bem-estar da mesma.

Os progressos científicos e tecnológicos prolongaram a esperança média de vida humana, o que concedeu um maior poder à humanidade e, com isso, a subjugação mais prolongada da natureza. A utilização excessiva da mesma em nosso proveito originou consequências que são observáveis atualmente, como, por exemplo, o aumento do nível médio do mar devido ao facto de as calotas polares estarem a derreter precocemente.

Hannah Arendt, sem a utilização do conceito environment, que é equiparado ao conceito que entendemos atualmente por ‘’meio ambiente’’, consegue alarmar os seus leitores para o facto de que na contemporaneidade a atividade dominante é aquela associada ao trabalho técnico sobre a natureza, o que acarreta enormes riscos ambientais.

Em The Concept of History (1961), Arendt utiliza o exemplo da cisão do átomo para demonstrar a fé cega no positivismo. Os seres humanos, através deste fenómeno, conseguiram provar a sua superioridade em relação à natureza. Através do fabrico humano, conseguimos apagar as barreiras que existiam entre a natureza e nós. Submetendo a natureza à sua vontade, o ser humano demonstrou o que seria um marco de um longo futuro de submissão da natureza, como também a sua ingenuidade e despreocupação com as implicações que daí poderiam surgir.

Esta fé cega no positivismo continua a existir. Acreditamos sempre que a comunidade científica e tecnológica irá arranjar alguma forma para solucionar qualquer adversidade que o ser humano enfrente, o que é extremamente falível. O nível extremo a que a crise climática-e-ambiental chegou é uma prova da ingenuidade humana nesse sentido.

Os progressos científicos e tecnológicos, que deveriam trazer bem-estar e longevidade ao ser humano, tornaram-se na génese de diversos problemas que afetam a própria sobrevivência do mesmo.

Ana Rita Pacheco, Estudante de Filosofia da FLUL

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