Filosofia, Greve de Porta Aberta

A crise climática e os seus paradoxos

Nas últimas décadas, tornou-se impossível escapar aos relatos da crise climática. Nas escolas a ecologia está inserida desde do primeiro ano do ensino básico e é discutida várias vezes ao longo do ensino obrigatório em várias disciplinas diferentes. Nas ruas há cartazes que nos relembram constantemente da necessidade de reciclar e de cuidar do nosso ambiente. Nas notícias há os tratados do clima, as fábricas, as grandes empresas, os governos, os políticos, os cientistas, os preocupados, os desinteressados, os pessimistas e os otimistas. Nas redes sociais há posts e movimentos, e declarações políticas para os seguidores. À nossa volta, há relatos das consequências das nossas ações: os incêndios, a subida do nível dos mares, os icebergs a derreterem, os verões mais quentes dos últimos séculos. E no entanto, por mais provas que os cientistas apresentem, ainda há aqueles que não acreditam, que se recusam a tomar medidas, cujas ações causam danos diretos ao nosso planeta e, consequentemente, a todos os que nele habituam.

O meu objetivo é examinar estas ações de um ponto de vista ético, tendo em conta um dos paradoxos da ética socrática:

Ninguém pratica o mal voluntariamente.”

Se este paradoxo estiver correto, então as pessoas que se recusam a acreditar na crise climática são apenas ignorantes e se não o fossem então certamente agiriam de outra maneira. Por outro lado, se o paradoxo estiver errado, então estas pessoas são de um caráter desprezível, realizando ações na perfeita consciência das consequências. De qualquer das formas, a humanidade não sai bem vista de este dilema.

Quando Platão escreve Sócrates a defender este paradoxo, obviamente não o faz com a crise climática em vista, mas sim com os males do “dia-a-dia” (e.g., egoísmo, homicídio, adultério, etc.) e o dano que estes causam à nossa alma. Logo, acho pertinente expor brevemente o raciocínio por de trás deste paradoxo.

Ética socrática

Em primeiro lugar, é preciso analisar epistemologicamente o termo paradoxo. No grego antigo, a para significava “paralelo a” ou “ir a oposto a”; enquanto doxa significava “opinião”. Desta forma, um paradoxo era aquilo que ia contra a opinião da maioria. Assim, faz deveras sentido que a declaração seja considerada um paradoxo, pois à primeira leitura parece de facto não fazer muito sentido: quantos de nós já não assistimos a alguém a praticar um mal em perfeita consciência daquilo que estava a fazer?

Sócrates platónico assume que todos os males são realizados na ignorância, que se o individuo soubesse que de facto estava a praticar um mal então de certo que agiria de outra forma. O argumento é o seguinte:

Quando se pratica um mal, há sempre um efeito prejudicial na nossa alma.

Ninguém quer provocar dano à sua própria alma.

Logo, ninguém pratica o mal voluntariamente.

Assim, praticar um mal é estar na ignorância do dano que este causa, pois de outro modo nunca ninguém praticaria um mal. Agora voltando ao século XXI e à crise climática, faremos a seguinte equivalência: praticar um male significa ações que contribuam para um aumento da poluição e do aquecimento global e a alma equivale ao nosso planeta.

Opção 1

Consideremos então que Sócrates tem razão quando declara que ninguém pratica o mal voluntariamente. Desta forma, todos aqueles cujas ações prejudicam o nosso planeta estão ignorantes daquilo que fazem. Vamos assim, avaliar a possível veracidade desta questão.

Neste caso, a ignorância é difícil de provar, como disse no início, estamos cercados por informações sobre a crise climática quase diariamente. Várias vezes já nos foram apresentados estudos científicos, fotografias, que provam o aquecimento global, que justificam os acontecimentos anormais que têm estado a acontecer no mundo inteiro à luz deste; mas há sempre quem se recuse a acreditar. É possível defender esta ignorância com a educação e a cultura que estas pessoas estão inseridas, é-me bastante credível que uma pessoa do sul americano que apenas está exposta a noticiários como a Fox News e à educação pública americana, olha para as ciências da mesma maneira que olha para a religião: uma questão de crença. Como este exemplo há vários: duvido bastante que o povo da Coreia do Norte esteja sequer atualizado sobre a crise climática, ou que todo o mundo tenha a mesma educação ecológica que os países chamados “desenvolvidos” (que são ricos o suficiente para se preocuparem com estas coisas do clima).

Porém, uma dúvida persiste. A população geral pode provavelmente praticar o mal na ignorância, mas e os políticos, aqueles que tiveram oportunidade de irem para a faculdade, que são pelo menos inteligentes o suficiente para conseguirem ser eleitos? Custa-me muito a acreditar que os políticos em posições de grande poder não tenham noção do que o aquecimento global traz. Escolhendo apenas praticar um ato de descrença com o objetivo de não só conseguirem manter os votos da população ignorante, como serem capazes de manter as empresas, de que eles ou os amigos são donos, sem “sofrerem” as alterações que uma atitude ecologicamente consciente traria. Continuando sempre a fazer lucros exorbitantes, explorando os recursos do planeta e emitindo poluição para a biosfera e atmosfera. Aqui pode-se dizer que estes males praticados lhes trazem vantagens, mas não sei até que ponto é que mesmo na mente deste tipo de pessoas o dinheiro de agora sobrepõe-se às gerações de amanhã. Um cético responderia que as gerações futuras deste tipo de políticos nunca haverão de sofrer por aí além, se o dinheiro e os amigos continuarem a valer mais neste mundo do que qualquer outra coisa.

Opção 2

Tomemos agora o paradoxo como errado, é possível praticar-se o mal voluntariamente e consciente das consequências. Assim, toda a gente que prejudica o nosso planeta de uma forma ou outra não está ignorante do ato que estão a praticar.

Esta opção é fácil de acreditar devido a algo que já referimos repetidamente anteriormente: ninguém escapa à crise climática. Com toda a informação que circula mundialmente, torna-se quase impossível não ter consciência da situação. E se há quem não acredite isso é uma impossibilidade lógica visto que a ciência é objetiva. Mas há novamente uma grande dúvida presente aqui: porque é que alguém poria o seu próprio planeta e vida em causa? Será o egoísmo humano capaz de um ato como este? Por vezes é demasiado fácil acreditar que sim. Como já referi em cima, aqueles que estão em posições de poder suficiente para causar direta ou indiretamente dano ao nosso planeta são aqueles que estão protegidos pelo regime capitalista que rege atualmente as nossas vidas.

No entanto, há pessoas do dia-a-dia que cometem danos mínimos ao planeta conscientes das consequências. Às vezes não há maneira de evitar isto. Não nos podemos esquecer que a crise climática é um problema dos ricos. Que importância tem o planeta quando não sabes como é que vais alimentar os teus filhos hoje? A preocupação com um clima é um problema mundial sim, mas só os países desenvolvidos é que estão atualmente capazes de o resolver. Como podemos pedir aos países em desenvolvimento cuja única fonte de energia é o carvão que parem as emissões de dióxido de carbono? Mesmo em Portugal, ainda há pessoas que não reciclam simplesmente porque não conseguem arranjar o tempo para o fazer. Parece uma desculpa esfarrapada mas não é quando se trabalha de manhã à noite, a receber o salário mínimo, com filhos para criar, contas para pagar, casas para limpar.

Comentários finais

A resposta a este dilema parece-me que se encontra num meio termo (muito aristotélico da minha parte): há pessoas que se encaixam na opção 1 e outras que encaixam na opção 2. No entanto, isto não é possível na filosofia. Não se pode ter um paradoxo ou uma lei ética que só funciona em determinados momentos. Platão, que sempre procurou uma verdade única e universal, nunca aceitaria isto.

Não sei qual é a resposta certa, nem me cabe apenas a mim saber. Mas sei que se todos pensarmos sobre este dilema talvez mudaremos certas coisas que precisam de mudar, tanto na nossa maneira de ver o mundo e esta crise como na maneira como agimos, de maneira a que finalmente consigamos algum sucesso nesta luta contra a poluição e o aquecimento global.

Beatriz Botequilha, Estudante de Filosofia na FLUL

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