Filosofia, Greve de Porta Aberta

Partes de Natureza

« Padecemos enquanto somos partes da Natureza, que não pode conceber-se por si sem as outras partes. »

Espinosa, Ética IV, prop. II

Durante anos regi uma cadeira de História da Filosofia Moderna na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. E habituei-me a pensar com os filósofos do passado que ia apresentando aos alunos, tirando ilações para a contemporaneidade. Mais do que ensinar-lhes os diferentes sistemas que constavam de um programa, foi minha preocupação salientar aspectos que nos ajudassem a compreender melhor o presente e, sobretudo, a tomar consciência de que muito que entendemos hoje como inovador fora por eles considerado, embora o fizessem com a linguagem e os conceitos da época. Ao debruçarmo-nos sobre fenómenos actuais que estamos a sofrer na pele – alterações climáticas, pandemias, esgotamento de recursos naturais e outras catástrofes que infligimos ao planeta Terra – é imperativo reflectir sobre o modo como devemos organizar as nossas vidas, precavendo-nos quanto a futuras crises deste ou de outro tipo. E é pertinente recorrer a pensadores da modernidade. Assim, lembro dois filósofos do século XVII , Espinosa e Leibniz, que muito nos ajudaram a equacionar a nossa relação com a Natureza. A citação com que iniciei este texto refere-se à nossa integração num Todo, Todo esse a que Espinosa chamou Deus ou Natureza. Dele somos manifestação, tal como os animais, as plantas, os rios, e tudo quanto existe. O elemento mais simples do universo é parte constitutiva de uma cadeia dinâmica em que se insere. E embora só os humanos sejam capazes de compreender racionalmente a estrutura em que se integram, eles são partes da Natureza, sofrendo as vicissitudes que nela ocorrem e sendo responsáveis por elas.

Na pequena jóia que é a Monadologia, o filósofo alemão Leibniz sustentou que toda a matéria está ligada e que os corpos comunicam uns com os outros, seja a que distância for. Por isso escreveu “(…) todo o corpo se sente de tudo o que se faz no Universo, de tal modo que aquele que vê tudo poderia ler em cada um o que se faz por toda a parte.” (Monad., § 61).Assim, no século XVII, Leibniz retoma a tese de Plutarco, filósofo da Antiguidade, para quem uma gota de sangue lançada no mar poderá modificar todo o oceano.

A ideia de que não somos donos e senhores da Natureza é uma constante nos pensadores do nosso tempo, nomeadamente naqueles que se debruçam sobre a ecologia e os seus problemas. Mas por muito diferentes que sejam as suas perspectivas, une-os a mesma preocupação quanto ao modo como delapidamos o planeta. E assim, vemos o Papa Francisco denunciar o saque que tem sido feito à nossa irmã Terra: “(…) crescemos a pensar que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la. (…) Esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra. O nosso corpo é constituído pelos elementos do Planeta; o seu ar permite-nos respirar, e a sua água vivifica-nos e restaura-nos.”

Na mesma linha de respeito pela Terra, lembro Vandana Shiva, uma cientista e filósofa indiana que se dedicou à causa da biodiversidade. Física nuclear por formação e ecologista por devoção, Shiva é porta voz das mulheres pobres do sul, considerando-as mais próximas da natureza por acompanharem de perto o ritmo da vida.

Em 1987 o Prémio Nobel de Economia foi atribuído a Robert Solow, do MIT, pelas suas teses sobre a economia do desenvolvimento. Alegou este cientista que o crescimento se baseia na possibilidade de prescindirmos da natureza e defendeu que o crescimento económico pressupõe um progresso através do crescimento do capital, esquecendo outro tipo de riquezas. Para Solow a natureza não tem valor, ou melhor, só o tem quando explorada pela ciência ocidental. Por isso considerou destituídas de valor económico e intelectual as mulheres do Terceiro Mundo, ignorantes e passivas, em contraste com os homens ocidentais, a quem só interessa o trabalho remunerado.

Shiva opôs-se frontalmente a este modelo de desenvolvimento e fez da realidade feminina indiana o tema central da sua investigação, estudando-a, contextualizando-a e procurando explicá-la. Por isso combateu firmemente o paradigma do domínio sustentado por Slow, no qual a homogeneidade e a centralização são essenciais. Na linha de uma ética prática, a filósofa abraçou a causa dos aldeãos e agricultores do seu país e fez ouvir a voz do Terceiro Mundo mostrando-nos a especificidade dos seus problemas ambientais. Defendeu sobretudo a causa das mulheres, considerando-as como principais vítimas da industrialização e das monoculturas.

Na perspectiva desta filósofa/activista, o domínio exercido sobre as mulheres na cultura indiana era paralelo à manipulação da natureza, particularmente visível na política destruidora seguida pelos países ocidentais. E assim, exortou as mulheres do seu país a não se acomodarem a um estatuto de vítimas, convidando-as a assumir um papel de protagonismo na construção de um mundo diferente. Consequentemente, apoiou e fomentou a resistência pacífica das mulheres indianas contra os grandes monopólios económicos. Em Earth Democracy. Justice, Sustainability and Peace, relatou os diferentes combates empreendidos contra o mercado livre e a globalização empresarial.

Shiva fundou o Movimento de Democracia da Terra (MDT), colocando-o ao serviço da paz, da justiça e da sustentabilidade. Foi um movimento de resistência civil que levou as populações a manterem os seus hábitos alimentares. As mega empresas americanas e europeias (Monsanto, Cargill, Rice Tec, e outras) tinham como objectivo vender os seus produtos aos indígenas, estabelecendo uma ditadura alimentar e levando-os a abandonar um modo de viver que respondia às suas carências. Em nome da cultura indiana Vandana Shiva incitou as camponesas a rebelarem-se contra esta invasão e a recusarem uma uniformidade alimentar e cultural. Daí o seu apoio ao movimento civil de troca de sementes. As sementes usadas pelas mulheres indianas tinham uma longa duração pois eram regeneradas ao longo de anos. As grandes companhias agrícolas pretenderam substituí-las por sementes transgénicas, distribuídas gratuitamente. Mas a vida destas era curta e obrigava à compra periódica de novas sementes. Shiva desmitificou o carácter “milagroso” destas e evidenciou as suas desvantagens, nomeadamente a anulação da biodiversidade.

Os programas de desenvolvimento agrícola impostos pelas grandes companhias industriais transformaram em monoculturas os terrenos férteis onde durante séculos dominou a diversidade biológica. As monoculturas não conseguiam satisfazer as necessidades alimentares das populações, até então asseguradas pelo trabalho feminino. Como resultado das plantações homogéneas surgiram fomes endémicas, propagaram-se doenças, cresceram a subnutrição e a mortalidade infantil. Shiva empenhou-se na luta pela biodiversidade, enfatizando a diferença e opondo-se aos processos de homogeneização e uniformização. Deste modo conseguiu recuperar e rentabilizar o saber das mulheres indianas, dando-lhe visibilidade e força e transformando-as em guardiãs da biodiversidade. Longe de lhes atribuir um estatuto de vítimas, exaltou as suas capacidades, mobilizou-as para uma luta não violenta e valorizou-as como construtoras de economias vivas. Conseguiu assim mostrar o potencial revolucionário das mulheres, sublinhando a sua maior proximidade com a natureza. Ao fazer delas cuidadoras por excelência, restituiu-lhes a auto-estima e a confiança que uma globalização violenta lhes tinha roubado e fê-las passar de vítimas a protagonistas.

A destruição dos ecossistemas é um dos flagelos que temos presenciado. A par dele assistimos a outros igualmente graves como é o caso do aquecimento global, das alterações climáticas, da desflorestação do planeta, dos incêndios, das pandemias, e de muitos outros males dos quais as mais das vezes somos espectadores passivos. No momento em que vivemos, agravado pela crise provocada pela covid-19, impõe-se uma acção conjunta, não só para debelar os malefícios da pandemia como para pensar num modus vivendi diferente, quando for vencida esta ameaça que presentemente nos afecta. Há que passar das palavras aos actos. E aqui a juventude deverá desempenhar um papel relevante, no apelo a reformas que levem à redução das emissões globais dos efeitos de estufa, na luta contra as alterações climáticas, no apoio à biodiversidade. No dizer do filósofo ambientalista Viriato Soromenho Marques “O milenarismo embriagado do crescimento infinito e incondicional morreu. Temos de ter muito cuidado para que a dignidade da condição humana não morra com ele.”

Apelamos aos jovens de todo o mundo para que se consciencializem da sua situação de “partes da natureza” e que, como tal, lutem por um futuro sustentável onde a solidariedade global se coloque como objectivo primeiro.

Maria Luísa Ribeiro Ferreira, Professora Catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa

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